“Depois de anos no ritmo do trânsito e das grandes campanhas publicitárias, Fred ajustou o relógio: ele agora esculpe talheres de madeira.
Não que a artesania estivesse em seus planos. Tudo começou quando ele achou um galho caído perto de casa. O formato de uma das pontas lembrava uma colher e ele pensou em transformar o pedaço de madeira numa colher de verdade. Conseguiu – e o que não se consegue depois de uma virada dessas? Passou então a aproveitar cada pedacinho de pau que encontrava pelo chão ou descartado em marcenarias. Raridades largadas ao relento ganham vida nas mãos dele, assim como o gosto por conhecer diferentes tipos de madeiras e testar seus limites. Cedro, roxinho, jaqueira, cumaru, sucupira.
Sem usar tinta e sem cortar um galho sequer, Fred forja colheres, facas, espátulas e até petisqueiras nas cores mais vivas da madeira. O resultado mostra que o nobre e o simples são vizinhos e moram ali, de frente para a praia. O segredo mora no tempo.
Arte e natureza não costumam ter pressa, por isso são mestres em esculpir pessoas. O famoso cenário da preguiça mostrou todo o seu valor: ao ver uma peça do Fred Gontijo, finalmente compreendemos do que o ócio criativo é capaz. Meu amigo saiu de Minas pra nascer de novo na Bahia – dessa vez, escultor. Lapidado pelo litoral baiano, pariu sua arte de transformar descarte em afeto.”
— Cris Pàz
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